5 de junho de 2019 ás 09:43 por Alisson

Pau da Bandeira: Apenas um bando de bêbados?

Existem crenças que precisam ser destruídas! Uma delas, espalhada à boca miúda pelo sopé da Chapada do Araripe e que para ser explicada exige muito mais disposição do que fé, é a de que o ritual de abertura da Festa de Santo Antônio – o carregamento do tronco que servirá de mastro para a bandeira do Santo “casamenteiro” – só obtém o ininterrupto sucesso de UM SÉCULO por causa da cachaça. Típica, superficial e equivocadíssima compreensão de quem detém – e se orgulha – da maior de todas as ignorâncias: a falta do conhecimento!

Para entender bem o assunto e calar definitivamente o Tomé que insiste em não acreditar, no primeiro domingo junino de 2020 separe uma roupa surrada, se banhe no melhor protetor solar do mercado, contrate um dos centenas de mototaxistas na rodoviária de Barbalha e peça que lhe leve até a “cama” do pau, no Sítio Malhada, alguns quilômetros de poeira Chapada acima.

Mas repare bem, a essa altura do jogo ainda serão oito horas de uma manhã de domingo e o dia será longo, quente e muito, muito pesado. Se tudo correr bem, doze horas depois você terá entendido de uma vez por todas que não houve, não há e nunca/jamais haverá a mínima, remota e distante chance de que homens embriagados consigam transportar – nos ombros – um Angico de 26 metros e duas toneladas e meia.

Meu amigo, não tem a mínima condição!

Fotografo essa festa há duas décadas e sempre me emociono. Nos anos que por algum motivo não pude está presente, senti. É como se o Nordeste, ou aquilo que chamamos de NORDESTE e não sabemos explicar o que seja, fosse reunido e comprimido num único dia, numa única cidade, numa única festa. Santo Antônio, de certeza absoluta, está envolvido nessa colorida mágica que transforma tradição em algo inexplicavelmente novo-sempre-de-novo. Talvez João ajude anualmente na alquimia, por certo Pedro colabore de alguma forma, o fato é que no primeiro domingo de junho, quando o vento de maio se despede e o frio desce a encosta, o Brasil Profundo abre o seu portal de ocultos significados.

Esqueça a cachaça!

Embora seja ela – transportada numa carroça e distribuída gratuitamente – uma espécie de combustível no contexto cultural da dualidade sacro-profana que desenha a brincadeira, nem de longe é a chave que desvenda o mistério. O que está em jogo, minha gente, naquelas doze horas de pura ritualística, é algo tão invisível que as vezes podemos até tocar antes mesmo de ver. Talvez você até consiga, no silêncio ensurdecedor de mil homens gritando, escutar o que a Madeira tem pra dizer ao tocar – mil vezes – o chão sagrado. Dos ombros ao chão, do chão aos ombros, dor e sorriso se abraçam num mesmo gesto infinitas vezes repetido enquanto o cortejo avança com o sol.

Água no caminho, além da que se vai bebendo, seja ela suave ou ardente, de pronto é convertida em alegria. Tudo é motivo de algazarra e a coisa vai num crescente que as vezes achamos mesmo que é na “vera”… mas logo vê-se que é na “brinca”. E como o mês é de junho e de junho é o batismo, que a lama benta faça também a sua parte. Nós, os fotógrafos, somos os primeiros convertidos. Já que queremos ver tão de perto, de pertinho temos que ver. Foi justamente esse aspecto, a propósito, uma das vezes que a emoção chegou mais junto. É incrível como os próprios carregadores nos “protegem” da própria confusão que eles causam. Isso deve exigir muito treinamento, mas em menos de dez segundos eles empurram, seguram, com uma mão passam lama na sua cabeça e com a outra cobrem a lente e evitam que seja atingida. “Quer água?”, ainda perguntam no final.

Nesse aspecto técnico, inclusive, se pretende fotografar tal ritual, aconselho manter uma certa distância do olho do furacão. A não ser que seja como eu e tantos outros que sempre reencontro por ali: não querem carregar apenas imagens. Ninguém faz um “ensaio fotográfico” do carregamento do Pau da Bandeira. Não existe ensaio, é tudo pra valer, ali e agora!

Quem for realmente sincero, na primeira curva descobrirá que não são mãos que carregam o tronco, ao entrar na cidade perceberá que não são ombros que sustentam o peso e quando o mastro for finalmente erguido na frente da Matriz compreenderá definitivamente que esse ritual é revivido – repito – há um século, não pela ilusória e passageira excitação promovida pelo álcool, mas sim pela constante e inquebrantável união de milhares de corações, pela Fé de homens e mulheres dedicados naquilo que essa palavra tem de mais original: Devoção!

A tempo: Antes que você pense que tal tradição carrega – literalmente e sem sentido ambiental – enormes árvores nativas da primeira Floresta Nacional criada no Brasil, vale lembrar que a cada ano, paralelamente ao corte do tronco que servirá de mastro para a bandeira, centenas de novos espécimes são plantados num bonito e sustentável processo de reflorestamento que, muito mais que garantir o futuro da tradição, vem rejuvenescendo esse importante patrimônio natural que une Ceará e Pernambuco e fazendo valer a palavra do nosso saudoso Padre Cícero Romão Batista: “Plante a cada dia pelo menos um pé de algaroba, de caju, de sabiá ou outra árvore qualquer, até que o sertão todo seja uma mata só”.

Viva Santo Antônio, São João e São Pedro, viva o sopro junino que movimenta tantas bandeiras e preenche de vida nova o início da boa safra

* A festa do Pau da Bandeira é reconhecida desde 2015 como Patrimônio Cultural Brasileiro e inscrita no Livro de Registro das Celebrações, pelo IPHAN.

Augusto Pessoa, Barbalha, primeiro domingo de junho, 2019.